Trapalhadas

Hoje o dia foi produtivo. Acordei cedo e fui para o centro da cidade. Participei durante todo o dia de um curso sobre como “montar um projeto de assessoria de comunicação”. Mas é óbvio que vindo de mim o dia tinha que ser atípico.

Como de costume, chego atrasada 15 minutos. E, como não confirmei antes, não fiquei sabendo que o curso havia mudado de sala. Ao entrar na instituição onde o curso seria aplicado, pergunto a moça no balcão onde fica a sala 401, ela me aponta em direção ao corredor prontamente. Entrei na sala e ainda com a forte sensação de que algo estava errado, permaneci ali, olhando a minha volta e procurando meu amigo Paulo que também estaria lá. Cheguei a perguntar aos colegas ao lado se estava mesmo no lugar certo:

Eu: – Só pra ter certeza, esta é a turma de como montar um projeto de…

Eles: – Sim, é aqui mesmo!

Eu: – Que bom, respondo eu, nem um pouco aliviada.

Papo vai, papo vem, todos se apresentam. O sentimento de que algo estava desencaixado permanecia. Havia profissionais da área da saúde, educação, administração, turismo, entre outros. Mas onde estavam os jornalistas e assessores? Durante a aula o professor insistia o tempo inteiro no assunto sobre como gerenciar um projeto. Passava noções de planejamento, marketing, com uma desenvoltura que prendia a atenção. Mas por que ele não fala o termo assessoria de comunicação?

Passados 1h30 de aula e explanações vem uma pausa. Ansiosa, ligo para meu amigo:

Eu: – Onde está você? Por que não veio?

Paulo: – Eu estou aqui na sala.

Eu: – Mas onde que não vi você?

Paulo: – É que o curso é na sala 404, achei que não tinha vindo. E você onde está?

Eu: – Aqui fora.

Paulo: – Então vem pra cá que ainda dá tempo!

Caramba, eu estava certa (sexto sentido funciona). Ali não era o curso que havia escolhido, ainda que fosse muito interessante. Rapidamente desloquei-me para o lugar correto. Gentilmente, a professora permitiu minha entrada e os risos com o que havia me acontecido quebraram o gelo inicial daquela intrusa, eu, tardia entrando na sala.

A conversa ali também foi produtiva. O restante das horas foi para refazer-me da confusão, matar as saudades do tempo de estudante e avaliar bem minhas escolhas profissionais. E ao final, descobri que o curso onde estava inicialmente era sobre “Como gerenciar um projeto”. Enfim, entre perdidos e deslocados, salvaram-se todos, inclusive eu.

Meus olhares pela cidade

Olho que tudo enxerga

Olho que nada vê

Olho, olhos andantes

Olho, olhos de sonho, sono, conforto, preocupantes

Olho, olhos misteriosos, chuvosos, jocosos

Olho que enxerga e nada vê, esbarra sem saber

Olho, olhos de tempestade, de chuvas, lacrimosos,

Olho, olhos apagados, luminosos, criminosos

Olho que olha e quer ver

Olho, olhos perdidos, velhos, crianças, mendigos, perdidos,

Olho, olhos de vidros, pequenos, compridos

Olho, olhos que nada vêem

Enquadrados numa muralha de concreto armado, desanimados, prestes a ruir.

Escrito em 08/06/10

Porque ela amava

A vida “normal a dois” deveria ser o suficiente para vivermos bem, com doses de emoção desmedida e pitadas de prudência. Ser corajoso, impetuoso é bom, mas ser irresponsável, extremista e arrastar o outro pelo caminho como tempestades é que deveria ser proibido. Era assim que ela pensava, era assim que ela sentia. Nunca precisou de grandes arroubos “sentimentalescos”, mas quando dizia amar alguém, amava. Não havia meio termo. Para ela, dizer ou expressar sentimentos sempre foi custoso. Desnecessariamente sofrido. Mas quando se libertava, simplesmente amava. No sentido mais casto e mais intenso da palavra: ela AMAVA.

E quando menos esperava o chão se abriu sobre seus pés. Tudo a sua volta desabou. Não havia mais sonhos, cor, perfume. Não havia mais leveza. Aquele aparente amor, dito olhos nos olhos, fantasiado de sinceridade, a estraçalhava. Como seria ter um amor saudável, como seria ser saudável com aquele que estava a seu lado? O fim seria a medida mais certa ou o erro mais covarde? Ela já não sabia. Só tinha porquês e não respostas. Em meio a um turbilhão de pensamentos, encontrou o mais torturante, que dizia:

-Não adianta perguntar a outros que viveram o que você vive, eles também não tem a resposta. Saiba que você também não a terá.

E naquele instante um lindo pássaro passou à sua frente, deu um verdadeiro rasante entre a copa da árvore e o solo. Parecia que queria ser notado por ela. Carregava uma pequenina e singela pétala, de uma flor amarela qualquer, mas o coração dela não se alegrou. Olhava e não via. Logo ela que sempre se encantou com o que realmente importava: a vida pulsante a seu redor. Esnobou vorazmente aquela imagem. A anestesia do nada sentir parecia mais fácil, mais confortável.

O que aconteceu com ela? Será que se apagou? Será mesmo necessário viver em busca de respostas e explicações? Logo ela que gostava da vida mais simples… Ela só conseguia pensar em escrever, era a forma com organizava as ideias. Mas até seus escapes, seus textos onde conseguia se observar com maior exatidão eram truncados, sofríveis. Em seu íntimo sabia que uma cova havia sido aberta. Seu algoz a jogara dentro sem piedade. Dera-lhe um corte certeiro em pleno coração. Machucada, ela não suportou tamanha dor. Caiu em desespero.

Ainda estava viva enquanto agonizava já soterrada e sem ar, dentro daquele minúsculo lugar. O coração ainda batia, mas tão descompassado e desesperado que passou a acreditar que não agüentaria tamanha dor a tempo de ser salva. Como ela era ingênua. Queria ser salva por aquele que a encerrou ali, sozinha. E, assim, seguia num luto de si mesma, a espera de um milagre que a traga novamente a existência. Não sabia mais o que era amar. Talvez ela nunca saiba.

“Separados quem somos? Somos um canal de televisão que saiu do ar e como ninguém desliga o aparelho de TV fica aquele chiado incomodando no escuro. Somos a lembrança de beijo que não foi dado; Se você não queria ser feliz comigo, saberá ser infeliz sozinho.”

Trecho: O Divã por Martha Medeiros

Em uma aula de teatro

São Paulo, 18 de maio de 2010
Biblioteca Monteiro Lobato
Projeto Teatro Vocacional
Com Silvanah Santos
Protocolo Nº 1
Por Suzana Nogueira

 

Um a um vai entrando no auditório.

Uns tímidos dizem boa noite quase entre os dentes,

Outros dão apenas um sorriso,

Alguns, de tão silenciosos, quase não são percebidos;

Há os mais atiradinhos falam muito e dão beijinhos,

Enquanto isso, o cheiro do café e das especiarias abarca cada um,

Em instantes tudo é devorado.

Ai, ai, vamos acordar gente, é hora de esquecer tudo e concentrar no trabalho.

Respiros, suspiros, alívios.

Cabeça erguida, limite do olhar, tônus muito tônus

Braços esticam, pernas se dobram, caminham, balançam, elaboram.

Um festival de ais e ufas ecoam no palco.

As gargalhadas também são válidas.

Uns acreditam ser tortura, outros acusam o sedentarismo, já boa parte acredita que a saúde é quem ganha.

Hora de soltar, saltar, cadenciar, se superar.

A dança começa,

No plano de baixo,

No plano do meio,

No plano de cima,

Tudo grande, enorme, preenchendo o ambiente,

Sintam o gesto, ele vem de dentro.

Parados, frente a frente, olho no olho, gesto no gesto,

Tranquilos, lentos, “como se o sol batesse no gelo”,

O encaixe é harmonioso.

Inspirem e expirem, o ar percorre o corpo, os sentidos.

Coreografados, dirigidos, entusiasmados,

Pausa, escolha das improvisações, busca do inesperado, novas configurações.

Crianças mudas brincantes,

Pessoas e um morto inquietante,

Fanáticos, perdidos, desconcertantes,

Fofocas, destruidoras, degradantes,

Ciganas, mendigos, farsantes,

Assim foi o último encontro, assim foi à viagem de seus navegantes.

Ainda que

Ainda que este espaço pareça ausente,

Ainda que você, leitor, sinta-se estranho, abandonado,

Ainda que espasmos textuais e infrutíferos ocorram,

Este blog ainda vive!

A árvore e a tempestade

Ela era uma árvore frondosa toda cheia de galhos carregados de folhas verdes e vivas. Parecia um verdadeiro condomínio de pássaros de várias espécies; Pardais, sabiás, bem te vis e outros; cujos nomes desconheço.

Nas madrugadas se transformava em um verdadeiro palco musical, pois os cantos maviosos e polifônicos espraiados dos gogós dos pássaros, anunciando a alvorada, serviam sempre como o primeiro despertar, antes dos despertadores mecânicos darem os seus alarmes irritantes.

Nas ensolaradas tardes quentes de verão ou noites abafadas, ela funcionava como um grande ventilador natural, transformando qualquer bafo de ar quente em uma brisa agradável, deliciosa e refrescante, através das suas folhagens abundantes.

A rua onde moro é toda arborizada de ponta a ponta, mas, a árvore quase de frente da janela do meu quarto, parece ter sido enquadrada na imaginação através da moldura de alumínio, confrontando com a barra dourada do céu quando o sol está se pondo no horizonte, formando uma cortina avermelhada das nuvens brilhantes.

Tudo parecia que continuaria bastante calmo naquele dia 12 de janeiro deste ano. Tudo levava a crer que, as tempestades que assolam São Paulo desde outubro do ano passado dariam uma trégua para esta cidade, um armistício verdadeiramente na acepção da palavra.

Pois,quando qualquer chuva que cai sobre a capital,mesmo com pouca intensidade, devido à falta de educação da população, as ocupações erradas, o descaso do poder público e a falta de estrutura que perdura há décadas, acabam se transformando em uma intempérie, um verdadeiro estado de guerra para todos os que habitam esta megalópole.

O dia amanheceu com nuvens normais, com o sol brilhando intensamente, reinando causticamente na manhã e quase toda à tarde. Aos poucos, os blocos de nuvens foram se aproximando e, como se tivessem agendado uma reunião para o céu de São Paulo, começaram a se agrupar.

De repente, como em um passe de mágica, o manto azul estava completamente coberto pelo manto imbrífero. O cenário já estava formado. A escuridão chegou mais cedo. Diferenciar o final da tarde com o início da noite, embora fosse horário de verão, só era possível pelo relógio.

Os relâmpagos clareavam os céus enegrecidos da cidade dando a impressão de que havia uma incursão de baterias antiaéreas, o ribombar dos trovões e o estrondar das centenas de raios que castigavam a cidade. Para variar a energia elétrica faltou. As velas e os relâmpagos eram a iluminação disponível naquele momento. Os sons da chuva, do vento e dos trovões substituíram o som dos televisores.

Ouve- se um forte estrondo de um raio, acompanhado de um barulho ensurdecedor de telhas caindo e algo mais. Subitamente ouve-se um grito de alguém:

– Caiu uma árvore no estacionamento!

E era ela. A árvore da minha janela. Da janela do quarto. Estava inteirinha no chão.Foram dezesseis anos acompanhando toda a sua trajetória de crescimento desde o dia em que foi plantada até ser uma vítima da tempestade.

Hoje a minha janela está órfã de uma árvore. Já há outra plantada em seu lugar que terá uma longa e grande trajetória no tempo, até chegar ao estágio desta que foi tombada pela tempestade. Espero que esta nova árvore resista a todas as tempestades naturais e, também, aquelas provocadas pelas mãos do homem.

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