Em uma aula de teatro
Um a um vai entrando no auditório.
Uns tímidos dizem boa noite quase entre os dentes,
Outros dão apenas um sorriso,
Alguns, de tão silenciosos, quase não são percebidos;
Há os mais atiradinhos falam muito e dão beijinhos,
Enquanto isso, o cheiro do café e das especiarias abarca cada um,
Em instantes tudo é devorado.
Ai, ai, vamos acordar gente, é hora de esquecer tudo e concentrar no trabalho.
Respiros, suspiros, alívios.
Cabeça erguida, limite do olhar, tônus muito tônus
Braços esticam, pernas se dobram, caminham, balançam, elaboram.
Um festival de ais e ufas ecoam no palco.
As gargalhadas também são válidas.
Uns acreditam ser tortura, outros acusam o sedentarismo, já boa parte acredita que a saúde é quem ganha.
Hora de soltar, saltar, cadenciar, se superar.
A dança começa,
No plano de baixo,
No plano do meio,
No plano de cima,
Tudo grande, enorme, preenchendo o ambiente,
Sintam o gesto, ele vem de dentro.
Parados, frente a frente, olho no olho, gesto no gesto,
Tranquilos, lentos, “como se o sol batesse no gelo”,
O encaixe é harmonioso.
Inspirem e expirem, o ar percorre o corpo, os sentidos.
Coreografados, dirigidos, entusiasmados,
Pausa, escolha das improvisações, busca do inesperado, novas configurações.
Crianças mudas brincantes,
Pessoas e um morto inquietante,
Fanáticos, perdidos, desconcertantes,
Fofocas, destruidoras, degradantes,
Ciganas, mendigos, farsantes,
Assim foi o último encontro, assim foi à viagem de seus navegantes.
Bela narrativa; envolvente,emocionante;chega às vezes a ser lúdica a narrativa. Às vezes misteriosa,mas com cenário,cenas e protagonistas que são transformados em imagens na imaginação,tamanha a sutileza da narrativa.Demonstra behaviorismo quando se trata dos personagens e da função referencial quando a narrativa menciona cada movimento, cada gesto, cada momento.A narrativa é uma mistura de Machado de Assis com Guimarães Rosa,em algumas passagens dos múltiplos contos de cada um deles. O texto vai prendendo as nossas respirações.Dá a impressão que estamos também na platéia e idem no palco e idem do lado de fora observando tudo,como a autora o fez.Sinto- me como um espectador de tudo! Ao mesmo tempo um leitor que parece ser um espectador.
Parabéns pelo belo texto Suzana.